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segunda-feira, 12 de outubro de 2015

08/10/15



     Uma vez ouvi uma citação que dizia que se uma pessoa se sentar em frente à uma folha de papel (ou de um computador, no caso) uma vez por dia e começar a escrever nela tudo o que vier à mente, sem ressalvas, essa pessoa se tornaria uma escritora dentro de algum tempo. Eu me lembro bem de quando eu era criança e ficava horas, ou achava que horas haviam se passado quando na verdade só se passaram alguns minutos, garranchando bobagens à lápis no meu caderno da Barbie.


 (provas)
 
     Às vezes eram bobagens das mais criativas, afinal, precisava encontrar uma forma de me entreter quando nenhum dos meus desenhos preferidos estava passando na televisão, mas também lembro bem de escrever coisinhas no formato de diário que não raro acabavam por me deixar frustrada. Eu tinha essa mania, que até hoje se mantém, de ficar comparando o tempo todo o que eu fazia com o que eu já tinha feito e com o que poderia vir a fazer. A insegurança de não acreditar na produção de um resultado satisfatório fazia com que o processo não fosse mais prazeroso e se tornasse chato, angustiante e produtor de ansiedade. Ok, muitas vezes distorcemos nossas memórias infantis, principalmente no que diz respeito à percepção ou autopercepção e, talvez, isso que eu tenha dito sobre o processo da escrita ter se tornado angustiante diga mais respeito ao que vivo agora.
     Ainda que seja verdade que com frequência eu me pegasse irritada sem saber o motivo, não foi na infância que adquiri essa maneira obsessiva com que procuro me podar (apesar de achar que parte das causas estão sim lá em mil novecentos e noventa e tantos). A grande diferença, entretanto, entre a criança que fui, ou mesmo a adulta (adolescente?) que fui em 2011 e a adulta que sou quando escrevo este texto é a quantidade de ferramentas que possuo. Estar em contato com o mundo, o que se pode chamar de viver, sempre foi um processo de descobertas e desafios, isso é verdade. Ainda que eu não me desse conta, desde que aprendi a organizar meus pensamentos logicamente estive tentando me tornar a melhor pessoa que posso ser. Ou pelo menos é o que diz a abordagem humanista. E mesmo para um organismo de, não sei, cinco ou seis anos de idade, é intuitivo acumular matéria-prima pelo caminho, aprendizados e memória de experiências que serão usados na construção de comportamentos mais seguros, produtivos ou que simplesmente tragam um retorno mais prazeroso mais adiante. Estou falando de um artifício que nós, primatas, adoramos: ferramentas. Li no meu livro de estudo (citações de minhas leituras, como matéria-prima para insights que são, serão frequentes por aqui):
"O homem ocupa lugar privilegiado entre os seres conscientes, pois nele a consciência encontrou saída para libertar-se, fazendo-o a partir das complicações da ação."
     Com seis anos de idade, ou mesmo com doze, eu não tinha a capacidade que tenho atualmente, adquirida através da experiência, física ou metafísica, de perceber que certos hábitos são nocivos e passíveis de mudança. É isso o que nos distingue, enquanto seres humanos, dos outros animais: a capacidade de manter uma memória das nossas percepções de nós mesmos, dos nossos fracassos e resultados, e usar isso a nosso favor. A terapia tem me ajudado a perceber o quanto sempre funcionei na base da satisfação de expectativas, ora criadas pelas pessoas que me cercam, ora criadas por mim. Parte do problema está no fato destas expectativas serem moldadas em torno da necessidade de modificar o que está ruim, ou de impedir que o "ruim" se concretize ("motivação da deficiência"), e não da necessidade de se criar coisas boas, de usar o que eu tenho de bom para fazer o melhor que eu posso ser ("motivação do ser"). Afinal, acredito que a vida, o produto deste "estar em contato com o mundo", nada mais é do que um constante processo de autoatualização, de construir a si mesmo (e construir o mundo e a própria história, como consequência), e não é isso que tenho feito ao longo destes últimos anos, pelo menos não ativamente. Eu acabei me esquecendo do que é buscar prazer nas minhas escolhas (e acho bacana diferenciar "prazer" de "distração" aqui). Na verdade, como eu estava imersa em uma realidade em que para ser boa eu precisava abdicar de tudo o que significava "ser eu", tudo o que me dava prazer acabou virando sinal de que as coisas não estavam indo bem. E daí para generalizar esse sentimento para todos os outros setores da minha vida foi um pulo. 
     Eu não podia mais tocar piano, pois a música não teria serventia alguma na minha profissão, além do fato de que eu nunca seria uma boa pianista. Eu não podia ler sobre assuntos que me interessavam, pois era impossível me concentrar quando eu me impunha a obrigação de extrair daquela leitura nada menos do que 100% de aplicação prática. E eu não conseguia mais gostar de escrever, pois o prazer da escrita (e de qualquer outra coisa) desaparece quando tudo com o que você se importa é em podar sua habilidade primeiro para depois pensar em produzir qualquer coisa. Oras, eu me esqueci do que era fazer uma escolha! Eu não fazia escolhas, eu organizava as coordenadas de que dispunha e traçava o meu trajeto, sem nunca ter feito parte da escolha do destino. 
     Falando assim, faço parecer que estes cinco anos de uma graduação indesejada foram a pior coisa que poderia ter acontecido na minha vida. Não é verdade. Também está longe de ser verdade que eu tive uma vida ruim. Entretanto, faço bem em reconhecer, finalmente, que vivi uma série de privações desde a mais remota infância que moldaram meu comportamento de forma a sempre almejar a satisfação de uma deficiência. Para reparar a ausência de um pai e uma mãe, eu precisava reparar a mim mesma, como se o problema fosse a minha existência deslocada neste mundo. Em busca de segurança, busquei obsessivamente por algo maior que me absorvesse em minha insignificância, como a figura de Deus em um primeiro momento, e depois o conhecimento. Uma maior compreensão do mundo, entretanto, não me deu mais segurança, mas a ciência de que eu não possuía as habilidades necessárias para me adequar. E foi assim, deixando-me guiar pela objetividade de uma vida reparadora, substituindo tudo o que me faltava por metas a cumprir, que eu estabeleci este modus operandi "tapa-buraco" em que nada, nunca, será suficiente. E foram esses cinco últimos anos de inédita independência (que não se deve confundir aqui com autonomia), vivenciando ao extremo o produto das minhas escolhas tortas, que me permitiram perceber tudo isso. Ok, a terapia e meus estudos sobre psicologia tiveram papel importantíssimo na construção dessa compreensão, mas minha graduação em veterinária me permitiu enxergar que havia algo de muito errado na maneira como eu estava guiando a minha vida e esse foi o primeiro passo.
      Eu poderia começar neste parágrafo uma nova digressão a respeito de tudo o que eu pretendo fazer para reparar esses meus anos de frustração e culpa, finalizando com uma lista de metas para cumprir até o final de 2015, mas estaria recomeçando o ciclo se o fizesse. A única coisa que eu pretendo, daqui em diante, e procurarei fazê-lo de forma não impositiva, é praticar a permissividade. Desde me permitir o poder de uma escolha, orientando-me a partir da crença de que aquilo me fará feliz, até me permitir sentar em frente à uma folha de papel e escrever nela tudo o que vier à mente, sem carregar o fardo da expectativa de um resultado satisfatório. Eu não quero recuperar a motivação infantil que me levava a escrever por escrever, o que eu quero é descobrir o novo tipo de prazer que a liberdade de escrita pode me oferecer. Eu não preciso, por exemplo, escrever só sobre mim e minhas percepções de mim mesma, como que fazendo das palavras uma ferramenta de incessante autoavaliação. Talvez seja essa a maior lição que 2015 tem me ensinado: experimentar a liberdade. Não prometo sucesso, entretanto. Não enquanto a espontaneidade do processo for mais importante que os resultados. 
     Não sei se vou me tornar uma escritora, mas se conseguir fazer de um papel em branco a válvula de escape que minha consciência necessita, já estarei satisfeita.

2 comentários:

  1. "quando nenhum dos meus desenhos preferidos estava passando na televisão"

    Com o seu (mau) gosto extremamente seletivo pra desenhos, imagino que isso acontecia com frequência.

    "ou mesmo a adulta (adolescente?) que fui em 2011"

    Melhor pessoa.

    "A terapia tem me ajudado"

    Eu disse.

    "Eu não podia mais tocar piano, pois [...]"
    "Eu não podia ler sobre assuntos que me interessavam, pois [...]"
    "E eu não conseguia mais gostar de escrever, pois [...]"

    Ai, como você reclama e____e

    Li.

    ResponderExcluir
  2. André do Blog, você estava particularmente sem criatividade no dia que fez esse comentário, em especial para o nick /eivc

    "Com o seu (mau) gosto extremamente seletivo pra desenhos, imagino que isso acontecia com frequência"
    Pior que sim, posso listar ainda hoje os desenhos que eu mais gostava que eram: Sakura Card Captors, Dragon Ball Z, Digimon, Rugrats, O Laboratório de Dexter, Os Tornberrys (melhor nome), Molly O (acabei de lembrar desse desenho agora!) e, hm, acho que eram só esses. Levando em conta que esses desenhos passavam em épocas diferentes, ficam poucas opções, hm.

    "Melhor pessoa."
    Se eu fosse daquele jeito hoje o você de hoje não ia nem querer ser meu amigo /eivc

    "Eu disse."
    Inclusive já estou fazendo consultas quinzenais /autopato

    "Ai, como você reclama e____e"
    Seja um bom amigo e me apoie em vez de reclamar das minhas reclamações /eivc

    "Li."
    Lo.

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